amanda miranda

Alguns lugares são pequenos

Pras nossas tralhas

Outros lugares são pequenos

Pra nossa alma

E há lugares que são tão grandes

Imensos

Que a gente nem cabe neles

A terra girou duas vezes

Pelo sol

E eu ainda sinto

Que parte de mim ficou

Num tempo/espaço distante

Eu era um pouco do que queria ser

Hoje

E sempre.

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Melancolia festiva

Em meio aos confetes, aos brilhos, aos cantos e passos orquestrados e ensaiados sobre pierrôs, colombinas e amores não ditos, uma melancolia sútil. Uma lágrima aqui, um soluço ali. Uma história com fim, enfim, em um grande e imenso portal por onde passou, dessa vez sem trégua. Se pudesse transpor novamente aquela barreira, seria sem olhar pra trás, deixando a festa transbordar enquanto os tortos se recompunham. Um caos, um sopro, um fracasso. Esqueceu-se de ver o sol nascer porque só sabia pensar em se por.

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Limbo

Tem um limbo entre a gente e o outro.

Ou você salta,

Ou se arrasta,

Ou afunda.

A escolha claramente é nossa.

Dar um passo é decisão que exige entrega e coragem, sorte e sonho, paz e um bocado de guerra.

De uns tempos pra cá, tenho me arrastado

E o mais difícil é saber se vale a pena ir até a linha ou se é mais sábio retornar ao ponto de origem.

Quando retorno, sinto que venci

O medo de me afundar e ficar pra sempre congelada

No limbo.

Quando avanço, sinto que nunca vou chegar. E não chego. Nunca.

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Pequenos silêncios

São preciosidades

Numa selva de vaidades,

De egos,

De maldades,

De futilidades.

Mas às vezes a gente precisa gritar

Pra entende nosso lugar no mundo

E ocupá-lo com força

E com algum juízo.

Cada vez que eu grito,

Fico ofegante.

O peito arde,

A voz embarga.

Mas aí eu me recomponho

E parto de novo -

E nasço outra vez.

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Piscou e o tempo passou

Foi-se a dor,

mas não as lágrimas.

Foi-se o tempo,

mas nunca a memória.

Foi-se o gosto,

mas não o rosto.

Esse ficou,

como também permaneceu

a poesia

de andar na multidão

no último dia em que foram um.

E sempre sentiria saudade.

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Saudade lúcida

Quando você enfeita a saudade de concreto: não para enterrá-la, mas para sabê-la presente desse jeito duro,

desse jeito sóbrio,

desse jeito cinza e nobre

como se fosse um jazigo.

A saudade lúcida nunca pede para voltar.

Ela simplesmente está

Forte, imponente, inquebrável

E cheia dessa terrível lucidez

Incapaz de sepultar memórias.

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enquanto esperamos
há um calor que esquenta lá fora
e que queima
e depois arde;
enquanto esperamos
falta um ar,
um suspiro,
um repouso;
e falta também
um tanto de coisa que sobra
de alguém
tipo um risco
um cisco
um salto
um sopro
um sonho.

enquanto esperamos
e, repito, tudo aconteceu durante e no compasso dessa espera,
mais de um mundo caiu
e outro se recompôs
porque esperar é isso:
não há trégua,
nem acordo,
nem tempo que chegue.

enquanto esperamos,
um tempo perdemos,
um mundo acabamos.

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Lembra daquele verbo categórico? Ele te fazia sorrir e depois chorar. Ele te empurrava pra ir, se jogar. Ele te fazia correr, pra depois andar. Te deixava o tempo todo sem ar. Ele te provocava silêncios, prantos, lamentos, mas também te fazia gargalhar. Te dava cócegas e medo. Te aliviava e te pesava cada centímetro de alma. Te contava segredo. Te freava e soltava no tempo. Aquele era o verbo que te atirava, te lançava. Lá do alto.

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Um monte de chuva

Caiu um monte de chuva. E, dessa vez, como não tinha sol, tampouco tinha sombra. Era um dia desses úmidos, que beiram à uma inconsequência insalubre só porque não dá pra respirar direito. Escolheu não respirar direito. E trovejar, junto com a tormenta, dois tons abaixo do que costumara até então.

A fúria já não provocava raios. Já amaciara os trovões. Não tinha sombra, nem treva.Quis desviar das cores, pois eram todas tão cinzas. Era início de janeiro. Princípio, começo. E fechou as janelas, dessa vez sentindo muito pouco, quase nada. Sentia, a bem da verdade, um desejo de ver aquela água toda que lhe caia do céu cair também na sua terra. E germinar, dali, quem sabe o que.

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